"Caça aos Gatos e aos Vazamentos" - Brasilia (DF)

Em 2010, a Caesb multou 3.772 fraudes, uma média de 10 por dia

De toda a água coletada pela Caesb, 24% não chegam ao destino devido a problemas como ligações irregulares e na captação



Adriana Bernardes

Publicação: 21/03/2011 07:00 Atualização: 21/03/2011 10:06

Aproximadamente um quarto da água captada pela Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) se perde entre a fonte e o hidrômetro do consumidor. Dos 8.820 litros por segundo coletados pela empresa, 24%, ou 2,1 mil litros por segundo, são retirados dos rios, mas não chegam às torneiras. O percentual está entre os mais baixos do Brasil — a média nacional é de 37,4% —, no entanto, ainda é considerado alto por especialistas no assunto. Em países da Europa, por exemplo, o desperdício das distribuidoras fica em até 15%.

Os dados mais recentes estão reunidos no Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto de 2008, do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), do Ministério das Cidades. O documento revela que “os índices de perdas elevados são consequência de uma infraestrutura física de má qualidade e também de uma deficiente gestão dos sistemas. Nesse sentido, são fundamentais os investimentos na melhoria operacional e na reforma da gestão de um lado e o recomendável não investimento em novos sistemas de produção de água de outro, pois, como se sabe, ampliar a produção em um ambiente de elevadas perdas pode ter como consequência perdas de água ainda maiores”.

Coordenador do Grupo Especial para Controle de Perdas da Caesb, Elton Gonçalves explica que as perdas de água se dividem em reais e aparentes. No primeiro caso, estão associadas principalmente a vazamentos, ou seja, trata-se de uma água que efetivamente não chega ao consumidor. Situações como essa representam 65% do desperdício apurado pela estatal. “A Caesb investiu fortemente na pesquisa de vazamentos não visíveis, recuperação de reservatórios, redução na pressão de suas redes de distribuição de água e substituição de ramais prediais”, detalhou Gonçalves.

A perda aparente é fruto das ligações irregulares, de fraudes ou de problemas nos hidrômetros. Ela corresponde a 35% das perdas da Caesb e, para reduzi-las, a empresa tem trabalhado na adequação da classe metrológica de seus medidores e feito campanhas de pesquisas de ligações clandestinas, mais conhecidas como “caça-gatos”. Ao longo de 2010, a empresa detectou, retirou e multou 3.772 fraudes, uma média de 10 por dia.

Segundo Gonçalves, com a melhoria da eficiência da medição da água, refletindo, em alguns casos, no aumento do volume medido e cobrado do usuário, tem havido um incremento significativo de fraudes e ligações clandestinas. “Essa prática acaba prejudicando o faturamento da empresa e, consequentemente, a restrição na capacidade de investimento visando melhorar os serviços prestados à população do DF”, avalia. Segundo Gonçalves, em 2007 o índice de perdas era de 31%.

De acordo com o relatório do SNIS, cinco estados — Ceará, Tocantins, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina —, mais o Distrito Federal, estão entre os que registraram o índice de perda de faturamento menor que 30%, enquanto dois estados da região Norte — Acre e Amapá — estão com os piores registros: os desperdícios são maiores que 70%. A Região Centro-Oeste tem o segundo menor índice, ficando atrás somente do Sul (veja quadro).

O desperdício na captação e na distribuição de água é uma das maiores preocupações da Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento (Assemae). Para o presidente da entidade, Silvio Marques, o índice nacional (37,4%) é altíssimo, implica em perda de receita das empresas e, consequentemente, na redução no investimento de melhoria da infraestrutura e em tarifa mais cara para o consumidor. “É uma perda enorme porque ele já captou, tratou e não vai receber por isso. Para evitar essas perdas, é preciso investir significativamente na melhoria da distribuição, e não se muda essa realidade de um ano para o outro”, afirmou Marques.


E eu com isso

» A água captada pelas empresas recebe tratamento químico, demanda gasto de energia e manutenção do sistema até chegar à casa do consumidor. Se muita água se perde antes de alcançar a torneira de casa, consequentemente, a companhia não tem como cobrar do contribuinte. O custo para a empresa fica alto. Mas a conta tem que fechar e alguém tem que pagar por ela. Muitas das vezes, a solução dos administradores é aumentar a tarifa.


Prejuízo

Índice de perdas de faturamento médio dos prestadores de serviços de distribuição de água participantes do SNIS em 2008:

Regiões - Total (%)
Norte - 53,4
Nordeste - 44,8
Sudeste - 36,2
Centro-Oeste - 33,7
Sul - 26,7
Brasil - 37,4

Fonte: Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), do Ministério das Cidades